28/12/2008 conta do destino Valquíria ficou curiosa quando sua terapeuta holística lhe enviou naquele janeiro um e-mail com o título “Ano Pessoal”. Na introdução, a explicação de que, na numerologia, a vida do ser humano se divide em ciclos de nove anos, calculados de acordo com o dia e o mês de nascimento da pessoa. No texto estava a fórmula para descobrir em qual ano a pessoa estava e o que poderia esperar dele. Aficionada por horóscopos, i-ching, tarôs e todos os tipos de leituras de sorte, Valquíria não perdeu tempo. Pegou um pedaço de papel e um lápis e foi às contas. O resultado era promissor. Afinal, ela estava no Ano Um, aquele em que tudo se abre para o novo, para os inícios, recomeços e oportunidades. Se sentiu tocada pela sorte. “Este será o meu ano”, pensou. Em janeiro, parecia que a previsão numerológica não tinha como falhar. Reencontrou um ex-namorado e retomaram o relacionamento. Tinham se afastado quando ela estava no Ano Cinco, calculou, e o recomeço em pleno Ano Um era o sinal que precisava para continuar sem medo. No trabalho, ela estava acomodada. Mas, depois de três anos na empresa, foi informada que receberia novas tarefas no início do mês seguinte e ficou animada. Na certa, ganharia uma promoção e o tão batalhado aumento. A descrição do Ano Um, portanto, lhe pareceu merecida. Fevereiro chegou e, em vez de ser promovida, ela foi transferida de setor. Ter que deixar colegas e principalmente rotinas de trabalho tão metodicamente construídas não era exatamente o que ela queria. Aumento de salário? Nem pensar. Ela suspeitou que algo estava errado na numerologia, mas ao ler de novo a explicação do Ano Um, concluiu que a mudança era uma nova oportunidade. Mas Valquíria passou a não entender nada mesmo quando seu namoro começou a dar errado. Gio parecia distante. Eles combinavam para sair e o rapaz não aparecia ou ligava em cima da hora para desmarcar. No final de abril, Gio desapareceu completamente. Para piorar, ela estava detestando a nova fase no trabalho e, numa crise de raiva, brigou com seu chefe e foi despedida. A menos de um mês de seu aniversário, torceu para que tudo fosse apenas parte do seu “inferno astral”, mas sua vida estava mesmo era de ponta-cabeça. Então, aos prantos, ligou para Ilka, sua terapeuta, para pedir explicações. Afinal, que fórmula de “Ano Pessoal” era aquela? Se sentia enganada pelos números. —- Você leu tudo o que estava escrito lá? — Lógico, Ilka! Calculei e sou Ano Um. — Mas o Ano começa no aniversário. Então, você ainda é Nove, o último do ciclo, o período em que tudo o que não serve mais vai embora, querendo ou não. Valquíria respirou aliviada. Afinal, estava escrito que aquela não era uma fase de assumir compromissos. Podia estar sem trabalho e sem amor, mas enfim podia ficar em paz porque tudo ia melhorar: tinha um destino. Era só ter paciência e esperar a vida passar.
sexta-feira, 3 de julho de 2009
21 de dezembro de 2008
21/12/2008 natal mais que feliz Álvares estava ansioso. Havia preparado uma noite de Natal antecipada para Elisa e não via a hora que ela chegasse. A namorada tinha que passar o Natal com a família. Já estava tudo marcado antes mesmo de os dois começarem o relacionamento. Iria com os filhos para a casa dos pais, no interior. Então, organizou uma noite especial para os dois uma semana do dia 25. Tirou um vinho da adega, preparou uma comida leve e comprou presentes. Cada um com um significado diferente. E lhe telefonou: — Passa aqui hoje — convocou. E só o tom da voz dele já deixou Elisa surpresa. Ela era insegura e eles, por causa de uma briga boba, não se falavam havia três dias. Ela telefonava, deixava recados e, quando ele dava retorno, ela não conseguia falar. Já estava imaginando que ele iria desistir. Entre eles, tudo tinha acontecido rapidamente e com muita intensidade. Álvares era muito mais do que Elisa havia desejado ou imaginado. Mas ela vivia com medo, como se corresse o risco de o relacionamento terminar repentinamente, como começou. Era como uma intuição ruim. — É lógico que eu vou — respondeu, com o peito cheio de apreensão, mas torcendo para que fosse a noite de Natal deles. Conseguiu sair do trabalho mais cedo e correu para a casa dele. O encontrou no portão, à espera. — Você demorou! — ele reclamou, num muxoxo, enquanto ela saía apressadamente do carro, louca para lhe dar um beijo. A raiva tinha passado e eles estavam com saudades. Como se ela não conhecesse o caminho, Álvares a levou para a porta. Ao entrar, Elisa levou um susto e perdeu a cor: na sala decorada para o Natal, vários presentes se espalhavam pelo chão. Elisa ficou constrangida. “Não podem ser todos para mim”, foi o seu primeiro pensamento. Mas não teve coragem de dizer palavra. Disfarçou, fazendo de conta que não estava vendo todos aqueles pacotinhos. Envergonhada, lembrou que só tinha comprado um presente para ele — um livro —, após andar muito pelas lojas, sempre com aquela impressão de que não iria agradar. Ele a colocou sentada no sofá e, como se fosse uma confidência, disse que adorava presentear no Natal. Era uma coleção de objetos simples, mas que tocavam o coração. Um porta-retratos (para a foto dele estar sempre na mesa de trabalho dela, disse), um pote cheio de bombons (para uma relação sempre doce), uma pedra que simbolizava o coração dele (agora nas mãos dela...). Álvares não tinha idéia, e talvez nunca venha a ter, do quanto fez Elisa feliz naquele Natal. Mas, por mais que na hora do brinde ela tenha desejado que aquele momento se repetisse por vários anos com ele, o romance dos dois durou pouco. O fim aconteceu por causa de um desencontro sutil. Foram só sensações, que não tinham tradução em palavras. Para Álvares, ela parecia indiferente. Mas ela só não conseguia demonstrar na vida prática o quanto ele era importante para ela.
14 de dezembro de 2008
14/12/2008 um beijo cúmplice Depois de passar o dia todo se preparando para encontrar seu grande amor, Tereza recebeu, no fim da tarde, o telefonema que temia: a secretária de Gilberto dizia que ele não poderia ir “no jantar”. — Ele teve uma emergência e mandou dizer que lhe liga no começo da semana que vem. Tereza caiu das nuvens. Ela sabia que aquilo era só mais uma desculpa. Afinal, já tinham sido vários encontros sem dar certo. E ela fingia acreditar nas suas diversas desculpas. Mas, naquela noite, apesar da tristeza, decidiu que não ficaria em casa, chorando. Ligou para algumas amigas, decidida a cair na farra. — Eu vou jantar com uns colegas de trabalho. Vem com a gente que depois vamos dançar — lhe propôs Juliana. Depois do jantar num restaurante da Vila Madalena e da esticada para um bar no Centro da cidade, metade do grupo seguiu para a casa de Juliana. A idéia era não deixar a noite acabar. Lá, a festa continuou mais íntima, regada a vinho. Apesar de mais animada, Tereza não conseguia esconder uma sombra no olhar, uma tristeza que Juliana conhecia muito bem. Afinal, acompanhava o caso complicado da amiga desde o início. Sentadas no sofá, enquanto conversavam sobre o dia, Tereza, enfim, desabafou e desabou. Sem saber ao certo o que fazer, Juliana colocou a cabeça da amiga no seu colo e começou a lhe fazer um cafuné. A mão macia foi descendo pelo pescoço e, quando Tereza percebeu, Juliana estava acariciando seus seios. Impossível saber se alguém mais na sala notou. Mas, de fato, estavam tão absortas que não se importavam com a exposição. De repente, Juliana parou e disse: — Eu não vou fazer isso com você, Tereza. — Fazer o quê, Ju? — respondeu, sorrindo. É que Tereza sentiu no gesto de Juliana algo que ia além do desejo: era puro carinho e amor. Tudo que precisava naquela noite. Não podia terminar em culpa. Dançaram na pista improvisada da sala até quase amanhecer. Na hora que Tereza decidiu ir embora, Juliana a acompanhou até a saída e, quando a luz do hall do elevador se apagou, aproveitou para dar um longo beijo na boca da amiga. Tereza aceitou e correspondeu. Na manhã seguinte, Tereza acordou feliz. Não havia esquecido Gilberto, mas sentia que havia conhecido um outro tipo de afeto. As duas trabalham juntas até hoje. Nunca falaram do toque, nem do beijo. Mas também não há constrangimentos entre elas. Só seguem sua rotina, mais cúmplices do que nunca.
7 de dezembro de 2008
07/12/2008 agenda de prefeito Virgínia morava havia apenas dois anos em Santo Inácio, mas conhecia a cidade como ninguém. Já tinha estado nos bairros mais periféricos e também nos mais famosos e badalados. Tinha na ponta da língua os nomes das principais personalidades do local, sua profissão, tendência política e importância para o município. Economista, Virgínia foi contratada pela prefeitura para fazer um projeto especial em apenas seis meses. Deveria analisar a vantagem econômica de transformar o centro antigo da cidade, que tinha um conjunto de prédios da década de 30, em área turística. Mas, após terminar o trabalho, deu um jeito de ficar morando em Santo Inácio. A decisão de viver a 500 quilômetros de sua terra natal tinha, porém, nome e RG: Marcio, um negro de 1,80 metro, musculoso, viril e muito, mas muito calado. Segurança e motorista particular do prefeito, ele era considerado uma das figuras mais discretas da prefeitura. Por mais que fosse abordado e bajulado, nunca dizia nada sobre a vida do chefe, nem uma única indiscrição. E também era discreto sobre a própria vida particular: poucos sabiam seu endereço e ninguém jamais o vira falar de uma mulher, apesar de ele ser um dos homens mais assediados da repartição e de ter saído com várias. Foi por causa do “deus de ébano”, como Virgínia gostava de chamá-lo, que minha amiga conhecia tão bem Santo Inácio. — Por dois anos, eu fui a todas as inaugurações desta cidade, podia fazer chuva ou sol. Ia a tudo o que tinha na agenda do prefeito para ver o meu “deus”. Nunca conheci alguém tão persistente como Virgínia. Não era apenas uma atração física o que ela sentia pelo segurança do prefeito. Era uma paixão que não media esforços para conquistar o que queria. — Amor à primeira vista, acredita? Mas ele, durão, não me dava bola. Então, eu não tinha outra saída. Até que um dia o homem se deixou cair pelas madeixas loiras de Virgínia. Foi numa tarde de novembro, quando o prefeito chamou o seu secretariado para uma reunião urgente sobre as enchentes. Márcio não precisou ficar no gabinete do prefeito e foi dar uma volta no prédio. — Depois me contou que estava tentando descobrir onde era a minha sala. A providência fez com que os dois se encontrassem no corredor do refeitório. Virgínia tinha descido para fumar um cigarro e pegar uma garrafa de café para a sua equipe. E ele se preparava para subir de elevador de volta à sala do prefeito. Então, aconteceu o mais desejado por minha amiga. — Quando ele me viu com a térmica, perguntou se eu não preferia subir pelo elevador particular do prefeito. Lógico que eu quis: aquele elevador é o mais apertado do mundo! E foi ali, num cubículo, que a térmica caiu no chão e eu nem liguei. Grudei no pescoço do negão e, até hoje, é lá em casa que ele mora.
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