quarta-feira, 9 de março de 2011

Um solteiro convicto

Ele era um homem desprovido de coragem para enfrentar uma mulher. Com quase 50 anos, se comportava como um adolescente quando o assunto era relacionamento. Não que fosse cafajeste ou mentisse sobre o que sentia. Não, Álvares não era assim. Ele sabia se apaixonar e ser romântico como ninguém. Mas simplesmente tinha medo de enfrentar algumas situações. Achava que amar podia ser o fim da sua natureza. Solteiro convicto, dizia temer o fim da sua liberdade, que ele preferia chamar de “vida errante”.

Álvares tinha um dom muito particular: um charme imbatível, que envolvia mulheres de todas as idades, tipos e classes. Só que, após a emoção da conquista e um tempo de convívio, ele não sabia o que fazer: o mesmo charme que o beneficiava se transformava em um peso. É que tal talento mantinha junto dele a mulher que ele já queria afastar.

O que Álvares fazia, então? Se calava. Ele preferia fugir a ter que enfrentar uma mulher para dizer um singelo “acabou”. Nem sempre Álvares enjoava rapidamente de uma mulher. De acordo com a inteligência dela, o caso durava mais, ou menos. Valorizava boas e longas conversas, pois nunca teve paciência para a burrice.

A insistência da moça em se meter em sua vida pessoal também podia determinar o tempo do namoro. Esquecer uma escova de dentes na casa dele, por exemplo, era um erro fatal.

Entre casos, namoros e encontros casuais, Álvares se sentia amado e odiado por mulheres que, lógico, nunca o entendiam. Algumas tinham por desafio pessoal mudá-lo. Nenhuma conseguiu. E sua fama de mau caráter era tão grande que muitas já não o levavam mais a sério. Mas ele procurava não se culpar. E, quando sozinho, se jogava nas baladas. E, se cansado, ficava em casa, com sua música e seus livros.

Até que a vida lhe deu um tombo chamado Elisa. Não era só mais um caso. O que o atraía? Ele não conseguia explicar. Álvares, do alto da sua experiência de homem que “sabe como funcionam as coisas da paixão”, se assustou quando percebeu que começava a sentir algo que não conhecia.

Elisa ria dele e dizia: “É amor, você não percebe?”

E ele reagiu da única forma que sabia: correu para longe.

Num primeiro impacto, Elisa sofreu como todas. Mas, mesmo conhecendo a fama do rapaz, tinha por ele uma confiança incomum e, quando ele reapareceu (o que não demorou muito tempo), não teve coragem nem vontade de rejeitá-lo.

Hoje, os dois vivem um vai-e-volta sem fim. Seu primeiro encontro já tem mais de um ano e eles ainda não se acertaram. Mas Elisa já não se preocupa mais com os sumiços de Álvares. O conhece pelo tom da voz, ri de suas fugas e zomba da sua falta de coragem.

“Pelo jeito como fala ao telefone já sei que vai me dar um nó. Para não enfrentar uma situação, é capaz de dizer que tem que levar a mãe ao zoológico”, ela diz.

É que ele ainda tem a ilusão de fugir do que sente. Mas, por mais que de vez em quando ainda tente, não consegue tocar a vida sem o bom humor e o sabor doce de Elisa.

Publicado em 22 de junho de 2008 na Diário DEZ!




domingo, 20 de fevereiro de 2011

Uma arma potente

As três eram garotas que gostavam de correr riscos. Judite bem que tentava mudar a inclinação até meio suicida da filha Lu e de suas duas melhores amigas, Sara e Diana. Mas nunca teve muito sucesso.

Dessa vez, as três haviam decidido conhecer um baile funk no Rio de Janeiro. Judite ficou com o coração na mão, mas como não conseguiu dissuadi-las, achou melhor colaborar. Sabia que o filho de um amigo morava no Rio, e pediu para ele ser o guia das meninas na cidade.

“Ela só não sabia que, sozinhas, a gente se viraria melhor”, disse Lu.

Daniel chegou em um carrão importado no aeroporto para pegar as três moças. De lá, os quatro iam direto para o baile funk no Morro da Mangueira. No carro, a vodca misturada com o flash power era a receita para o esquenta.

“Mas, de repente, eles entraram em uma rua errada e o carro foi sacudido por uma rajada de balas”, contou Judite.

O pânico foi geral. O rapaz achou que tinha levado uma bala nas costas. Não tinha, mas ficou mais desesperado ainda quando olhou para trás e percebeu que os atiradores eram policiais fardados.

“Eu estou sem minha carta de motorista”, revelou, branco e quase chorando de medo.

As meninas estavam confusas, com o coração a mil por causa do tiroteio, mas não perderam o rebolado. Desceram do carro e começaram a falar sem parar com os policiais, todas ao mesmo tempo.

“Nossa, que trabuco! Qual é o nome?”, perguntou Lu.

“O que foi esse tiroteio?”, quis saber Sara. “Fizemos algo de errado?”, completou Diana.

Era uma blitz de rotina. Os policiais tinham dado sinal para o Daniel parar, mas o rapaz nem percebeu e seguiu com o farol alto. Os tiros foram de alerta, para cima.

As meninas se mostraram assustadas. Explicaram que eram de São Paulo e que estavam no Rio para conhecer um baile funk. E que o amigo tinha errado o caminho. Começaram, então, a encher a bola dos policiais:

“O trabalho de vocês é muito importante”, disse Sara.

“E as armas, então! As dos policiais de Sampa são minúsculas”, garantiu Lu.

Diana pegava na mão de um deles e a colocava no lado esquerdo do peito para que ele pudesse sentir o palpitar acelerado de seu coração.

“Vocês nos assustaram, mas entendo. Têm que proteger a comunidade. Se o PCC fosse daqui, não ia ter vez com este batalhão”, afirmou a moça, já sacando da bolsa uma máquina fotográfica.

“Vamos, gente, temos que registrar esse momento”, falou.

Os policiais sorriram envaidecidos e posaram sem cerimônia.

"E, com tanta mulher falando junto, esqueceram de pedir a carteira de motorista do Daniel”, lembrou Judite.

“E o baile funk?”, eu quis saber. “Ah! Foi maravilhoso! Mas esta é já outra história”, completou Lu.

Publicado em 15 de junho de 2008 na Diário DEZ

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terça-feira, 4 de janeiro de 2011

Paixão apaziguada


Lúcia sabia que estava estranha nos últimos dias. O sentimento parecia não ser mais o mesmo.

Quando conheceu Francisco, de imediato soube que aquilo era mais do que uma paixão. Ele não era bonito, não tinha dinheiro, um trabalho fixo ou um futuro promissor. Mas era o timbre da sua voz, o jeito como se deslocava pelo espaço e olhava para o mundo que a encantavam. Não teve dúvidas.

Francisco também não vacilou. Ela não era delicada, não tinha um corpo escultural, nem os olhos azuis que ele sempre desejou encontrar. Mas, quando estava presente, sua energia o iluminava. Seus olhos eram tão negros que ele se viu refletido neles e, acreditou, não poderia mais deixar de fitá-los. Nunca mais se interessou por olhos claros.

Tiveram primeiro um caso, depois um namoro, até que foram viver juntos. Tinham a ilusão de ter uma relação tão incomum que nunca se permitiram chamar um ao outro de marido e mulher. Se diziam namorados e eternamente apaixonados. O frio na barriga, o tremor nas pernas, o palpitar no coração que marcam o início da paixão eram sinais importantes para o casal. Mesmo com um filho, queriam sempre ter essas sensações dos namorados. E por muito tempo conseguiram.

No 12 de junho, a escolha do presente nunca era motivo de dúvida. Por intuição, entendiam o que deveriam dar ao outro. Podia não ser algo útil, mas sempre era um símbolo que expressava o afeto que sentiam e o valor que davam àquela convivência. Por isso, Lúcia se assustou quando sua intuição começou a não lhe dizer mais no ouvido qual era o presente ideal.

Na primeira vez, tentou não dar muita importância ao fato. Comprou naquele ano um cinto e um par de meias. Francisco até gostou, mas no fundo não entendeu. Depois, nem pensou muito no seu estranhamento e logo o esqueceu.

No ano seguinte, o mesmo incômodo no 12 de junho. E ela percebeu que seu coração não batia mais forte por Francisco. Ela não tinha mais calafrios. O charme que a fazia suspirar era agora um velho conhecido. A paixão estava apaziguada. E se questionou: “Viramos um casal comum? Nada mais nos vai emocionar?”

Caiu em depressão. Seria aquele o início do fim do eterno namoro? Para Francisco, porém, nada tinha mudado. Ou melhor: nada que tinha mudado significava o fim do sentimento, como Lúcia pensava. É que seu olhar sobre as questões do coração não era tão romântico como o dela. Ele só via vantagens no coração sem palpitações.

“O amor está mais maduro, mais calmo. Não é um defeito. Mas sim um efeito desse nosso eterno namorar”, ele lhe disse. A explicação a convenceu. E, aos poucos, ela se acostumou com o que chamou de “novo jeito de amar”. Às vezes a sabedoria masculina surpreende.

Publicado em 8 de junho de 2008 na Diário DEZ


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domingo, 2 de janeiro de 2011

01/03/2009 QUESTÃO DE DESEJO

01/03/2009 QUESTÃO DE DESEJO Foi horrível. Melissa não imaginava que a vida de casada, um relacionamento de 20 anos, chegaria àquele fim: numa noite, sem meio-termo, sem desculpas. Simplesmente não. Ela não podia permitir que Caio lhe desse mais um beijo sequer. Não queria que ele a tocasse. O desejo, que já era pequeno, havia desaparecido de vez. Melissa demorou muito para descobrir que o seu problema era a falta de desejo pelo marido. Desde o namoro o fogo da paixão não a aquecia. Mas ela gostava de Caio, eles tinham um relacionamento tranquilo e, assim, Melissa mantinha como queria a regularidade das suas transas. — Eu tinha o desejo sob o meu controle. Ele só acontecia quando eu queria — me explicou. Casada, Melissa passou a apelar para a ameaça de gravidez para se esquivar do marido. Dizia que não podia tomar pílulas e impunha uma rigorosa tabelinha, com um período proibido às vezes exagerado. Caio aceitava as desculpas da mulher. Com o passar dos anos, dos filhos e da maturidade, Melissa começou a achar que tinha algum problema mais sério. Caio sentia cada vez mais desejo e ela não. As amigas contavam histórias de noites maravilhosas com seus parceiros, mas para ela o assunto não fazia o menor sentido. Começaram as crises e as dúvidas: — Por que não desejo o meu marido? Será que sou frígida? — se perguntava. Foi por volta dessa época, com quase 15 anos de casamento, que Melissa conheceu Antero. Ele não era bonito, era até mais velho que Caio, mas exerceu sobre Melissa uma atração que ela nunca havia pensado que existia nesta vida. — Ele não deu em cima de mim. E eu também não me ofereci. Mas não foi necessário. Tudo aconteceu naturalmente. A gente apenas queria ficar junto. E fomos parar na cama. Tudo aconteceu em um único dia. E não foi só sexo. Eu me apaixonei por ele como nunca — ela me contou. Mas Antero foi embora. Eles decidiram não trocar telefones nem endereços, já que tinham família. — Disse a ele que o destino do nosso caso era ser assim: rápido, sem vínculos. E ele se foi. Mas aquele encontro rápido mudou para sempre a concepção de desejo e paixão que Melissa tinha. Pela primeira vez na vida, ela entendeu por que não se sentia atraída pelo próprio marido: — Eu nunca fui apaixonada por ele. E não percebia o quanto isso é importante. Achei que conseguiria envelhecer assim. Mas, agora que sei o que é ter desejo de verdade, não dá. É mais fácil viver sozinha do que compartilhar a vida com quem não se deseja.




ResponderResponder a todosMover...Entradacoisas minhascomprovantesholeritestextos interessantesVivi Colin