Publicado em 17 de fevereiro de 2008
Gilvaneide tinha um estabelecimento. Decidiu montá-lo em Piriquara, interior de Pernambuco, quando voltou de São Paulo. Seu estabelecimento virou um drama familiar. “Que horror o que Gil faz”, afirmam suas tias. “Não sei por que esse Carnaval. Ganho dinheiro honesto e ainda emprego um primo e uma sobrinha”, diz a moça. O primo é o segurança. A garota serve as mesas.
Acontece que o estabelecimento é um puteiro disfarçado de lanchonete, com quartos na parte de cima. “Elas só me pagam o aluguel”, explica Gil, pra então acrescentar que as meninas também têm que pedir bastante bebida e porções para os clientes pagarem a conta. “Na bebida delas ponho refrigerante. É o meu lucro”, confessa.
Não há amigo ou parente que vá a Piriquara que não queira dar uma passada no estabelecimento. As respectivas mulheres juram vingança.
Quando moça, Gil já tinha fama de doida. Teve problemas, mas alcançou uma vida normal. Dizem que uma tragédia pessoal “virou a sua cabeça”. Mesmo assim, não a perdoam.
Aos 17, Gil saiu de ônibus escondida de Piriquara e desembarcou no Recife. Como seu sonho era mesmo conhecer São Paulo, fez uns bicos de faxineira, comprou uma blusa de lã e um guarda-chuva e baixou na Terra da Garoa. Sem demora arrumou um emprego de doméstica, com carteira assinada e moradia garantida. Aí, conheceu um rapaz, pegou barriga, perdeu o emprego e foi morar com ele. Estava com 21. Nasceu Renato. E o rapaz, após ver o bebê, desapareceu. Sem emprego nem casa, Gil entrou para o movimento sem-teto, invadiu um terreno na Zona Leste e acabou ajudando a construir um novo bairro na periferia. Viveu assim durante anos, sozinha com o filho, mas feliz por ter conseguido sobreviver.
Um dia, Renato, que quase nunca saía de casa, brincava na calçada. Um carro entrou na rua em alta velocidade, perseguido pela polícia. O motorista, um ladrão, perdeu o controle e atropelou o menino, que tinha 10 anos e morreu na hora. Quando olhou para o bandido, Gil reconheceu o pai do garoto. E enlouqueceu. Passou a se esconder nos armários. Depois, ficava acordada até tarde esperando o menino voltar. Foram anos de tristeza, até que decidiu voltar para Piriquara.
— E o que vai fazer lá, Gil? — eu quis saber.
— Vou montar um puteiro, ora.
— Mas justo um puteiro, mulher?
— É que esse é o melhor jeito que arrumei para me vingar de Deus.
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domingo, 19 de abril de 2009
Sem Melar a Voz
Publicado em 10 de fevereiro de 2008
José não entendia Magali. Ele até percebia que ela era uma mulher incomum, que não podia tratá-la como outra qualquer, mas insistia em colocá-la na mesma categoria de várias de suas amigas e ex-namoradas. Na verdade, ele tinha medo dela. Porque sua intensidade era mesmo assustadora.
Magali era engraçada. Não falava muito, mas tinha convicções avançadas para o seu meio. Adorava prestar atenção às reações sutis que as pessoas tinham com os fatos do cotidiano. “É aí que elas mostram o que de verdade são”, dizia.
Lembro, por exemplo, do horror que demonstrava por mulheres que melavam a voz quando se dirigiam ao namorado em público. Dizia que faziam isso só para marcar presença, mostrar para as outras fêmeas que aquele macho tinha dona.
— Que implicância! Isso é tão comum! — eu lhe dizia.
— Mas repara como é ridículo ver uma menina chegar pro namorado no meio da roda de um bar e falar assim, com aquela voz chorosa, batendo de leve a mão na cadeira do lado: “Ah, amor, senta aqui...”. Constrange qualquer um. Dou toda a razão quando o cara ignora — ela respondia.
É lógico que Magali gostava de rompantes românticos. Adorava o amor privado, as juras secretas, os jogos de sedução, o cuidado sutil que, defendia, um sempre devia ter com o outro. Só não gostava das demonstrações públicas exageradas.
— O compromisso tem que ser leve, não pode paralisar nenhum dos dois — pregava, sem vergonha de ser piegas.
Quando estava no meio de um grupo, queria estar solta, misturada à multidão, livre para mexer com quem quisesse e também para receber elogios, agrados, olhares. O problema é que os homens que conheceu, até os que se diziam muito liberais, sempre acabavam em crises de posse.
— Por que, entre casais, um sempre tem que querer sufocar o outro? — questionava.
Um dia, brigou com um namorado porque, em uma churrascada, foi abraçá-la e beijá-la, perguntando por que o estava ignorando. “Parecia que eu era um troféu!”
Sonhava com um amor aberto e tranqüilo. Alguém em quem pudesse confiar, que também confiasse nela e pronto. O tempo de se ver seria o tempo possível, porque os dois saberiam que não havia motivos para preocupações sem fundamentos. Queria ser, sim, paparicada e paparicar, mas não admitia depender de nenhum homem e não queria que ele dependesse dela para viver.
Coitado de José! Acostumado com garotas que se esforçavam para parecer avançadas, Magali o assustou. Tanta liberdade era demais. E o romance dos dois, sem nenhuma explicação, acabou.
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José não entendia Magali. Ele até percebia que ela era uma mulher incomum, que não podia tratá-la como outra qualquer, mas insistia em colocá-la na mesma categoria de várias de suas amigas e ex-namoradas. Na verdade, ele tinha medo dela. Porque sua intensidade era mesmo assustadora.
Magali era engraçada. Não falava muito, mas tinha convicções avançadas para o seu meio. Adorava prestar atenção às reações sutis que as pessoas tinham com os fatos do cotidiano. “É aí que elas mostram o que de verdade são”, dizia.
Lembro, por exemplo, do horror que demonstrava por mulheres que melavam a voz quando se dirigiam ao namorado em público. Dizia que faziam isso só para marcar presença, mostrar para as outras fêmeas que aquele macho tinha dona.
— Que implicância! Isso é tão comum! — eu lhe dizia.
— Mas repara como é ridículo ver uma menina chegar pro namorado no meio da roda de um bar e falar assim, com aquela voz chorosa, batendo de leve a mão na cadeira do lado: “Ah, amor, senta aqui...”. Constrange qualquer um. Dou toda a razão quando o cara ignora — ela respondia.
É lógico que Magali gostava de rompantes românticos. Adorava o amor privado, as juras secretas, os jogos de sedução, o cuidado sutil que, defendia, um sempre devia ter com o outro. Só não gostava das demonstrações públicas exageradas.
— O compromisso tem que ser leve, não pode paralisar nenhum dos dois — pregava, sem vergonha de ser piegas.
Quando estava no meio de um grupo, queria estar solta, misturada à multidão, livre para mexer com quem quisesse e também para receber elogios, agrados, olhares. O problema é que os homens que conheceu, até os que se diziam muito liberais, sempre acabavam em crises de posse.
— Por que, entre casais, um sempre tem que querer sufocar o outro? — questionava.
Um dia, brigou com um namorado porque, em uma churrascada, foi abraçá-la e beijá-la, perguntando por que o estava ignorando. “Parecia que eu era um troféu!”
Sonhava com um amor aberto e tranqüilo. Alguém em quem pudesse confiar, que também confiasse nela e pronto. O tempo de se ver seria o tempo possível, porque os dois saberiam que não havia motivos para preocupações sem fundamentos. Queria ser, sim, paparicada e paparicar, mas não admitia depender de nenhum homem e não queria que ele dependesse dela para viver.
Coitado de José! Acostumado com garotas que se esforçavam para parecer avançadas, Magali o assustou. Tanta liberdade era demais. E o romance dos dois, sem nenhuma explicação, acabou.
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Os Dois Melões

Publicado em 3 de fevereiro de 2008
Bianca tem apenas 7 anos. Como toda menininha da sua idade, adora o cor-de-rosa, as fadas modernas que lutam pelo bem da humanidade e as bonecas Barbie. Acho que é efeito da televisão.
Penso que também vem daí a sua fascinação pela moda. As roupas que usa têm que ser justas, as cores de cada peça sempre combinando e, de preferência, um detalhe brilhante enfeita o conjunto.
Outro dia, Valéria, sua mãe, arrumava-se para ir trabalhar. Tirou do guarda-roupas um vestido tubinho preto, com uma estampa de galhinhos de flores miúdas, brancas, bem básico e discreto, herança de uma tia querida.
Sentada no sofá, vendo desenho animado, Bianca olhou, avaliou e disparou:
— Mãe, você parece uma velha com esse vestido... Não combina!
A garotinha de 7 anos pegou a mãe no fígado! Há meses ela estava com a sensação de que aquele vestido de crepe tinha mais cara de senhora-senhora do que de jovem-senhora-que-não-gosta-de-se-vestir-na-modinha-mas-que-também-odeia-cafonices. Mas mantinha por teimosia o modelito pendurado no armário. E, na fase dos 40 que estava, qualquer menção à velhice a deixava enlouquecida de raiva. Então, explodiu:
— Pô, Bia, eu já desconfiava que esse vestido me envelhecia, faz tempo que não uso, mas você tinha que falar assim, na lata??!!
— Não, não, mãe! Tá bom, tá bonito, pode ir com ele! — respondeu, quase pedindo desculpas.
— Não vou! Quer saber? Vou tirar agora e dar pra alguém! Ó, vou tirar e dar pra babá levar pra mãe dela! Vai servir direitinho na dona Maria!
E a menina retrucou baixinho:
— Na minha avó também ia ficar bom...
Bianca é assim. Tem opinião formada sobre o que combina com cada pessoa. E, quando se trata de uma mulher, sempre vai indicar o que é mais feminino. É assustador, porém, o quanto a sua própria feminilidade já desabrocha, apesar de ser tão pequena. É como se não visse a hora de ser uma mulher, apesar de adorar ser criança.
— Camila, todo mundo diz que pareço com você. Mas você é tão linda! — disse outro dia para a prima, que é realmente o que chamam por aí de mulherão. Tem 22 anos, é naturalmente loira, alta e de corpo torneado por 15 anos de ballet.
— Oh, querida, a mais linda é você!
— Não, não! É você — insistiu a garotinha.
— Tá, Bia, então me diz por que você acha que eu sou mais bonita do que você?
— É que você tem peitos! — respondeu, fazendo com as mãos aquele clássico movimento de balançar dois melões na frente do corpo.
Será que isso também é efeito da TV?
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O Bom Tormento

Publicado em 27 de janeiro de 2008
Antonia acordou naquela manhã e não quis levantar da cama. Dormir já tinha sido um sacrifício. Na última noite, havia o barulho da chuva. Antonia sempre adorou dormir com o barulho da chuva no asfalto, os trovões ao longe, as folhas balançando nas árvores, no quintal. Porém, daquela vez, ouvir a chuva batendo na calha foi como ouvir marteladas que a impediam de relaxar. “Onde ele está?”, ela não parava de se perguntar.
A chuva insistente tinha decidido não parar e Antonia dormiu com seus pesadelos de sempre. Monstros a alcançavam. Ela corria por um mundo escuro e negro, com árvores centenárias e raízes contorcidas. E sempre tropeçava e escorregava na terra. E, ao acordar, eram só o medo e a solidão doendo na alma.
Mesmo quando dormia acompanhada de um de seus casos eventuais, ela tinha o pesadelo e acordava assustada, com a transpiração fria e a respiração ofegante. Aquilo sempre se repetia. E o pior é que nem achava seu pesadelo original. Para ela, sua aflição noturna tinha imagens parecidas com aqueles filmes B americanos e de terror. E Antonia sempre odiou filmes americanos de terror.
Naquela manhã, incomum por causa da chuva que não parava, ela se encolheu ainda mais debaixo do cobertor, apertou seu travesseiro e quis voltar a ser criança. Criança, achou, não pensaria nele. Mas não conseguia ser criança. Sentia como mulher que era. Pensar naquele homem era parte de sua rotina.
Ricardo. Acordar com ele todos os dias no seu coração, dirigir a ele o seu primeiro pensamento, suspirar e torcer para encontrá-lo assim, sem querer, pela rua, tomando um café no bar da esquina, no consultório do dentista, no posto de gasolina. Mais que os pesadelos constantes, era esse o seu pior tormento. “É que não só acordo com ele, mas penso nele a toda hora, em várias situações, algumas até sem sentido. Outro dia, tive a certeza de que era ele gritando na calçada as ofertas da semana no maganize que tem em frente ao meu trabalho”, ela me contou. “E por que você não vai fazer terapia? Ou vai enlouquecer”, perguntei. “Eu já faço terapia.”
Entendi que, de fato, Antonia adorava e cultivava tal “tormento”. Porque era tudo o que lhe tinha sobrado de Ricardo: lembranças e fantasias. Ele não havia sido apenas um caso eventual.
Com a chuva, tudo era muito doloroso. Antonia suportava a lembrança na rotina, mas a chuva lhe trazia um desejo por algo que não se completou. Algo que ela desejou, mas que não soube como alcançar. Uma culpa sem sentido já que nada acontece fora de sua época. Mas era como se ela já o tivesse perdido. Por onde andaria aquele rapaz?
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