domingo, 28 de setembro de 2008

Virando o Pote

Publicado em 25 de novembro de 2007

Por quanto tempo a gente consegue tapear o ciúmes? Se exagerado, destrói a gente por dentro. Só é útil se vier em doses homeopáticas, até divertidas. Mas a tentação de engolir o pote numa talagada só às vezes é muito maior do que a nossa capacidade de ponderação.

O ciúme é diferente para cada um. Uma prima tinha ciúmes de qualquer um que se aproximasse do seu marido. Era como uma doença. Hoje ela está chata e só, e ele está feliz com outra. Não é um bom exemplo.

Achei um cara casado que curte sexo com a mulher e mais alguém. Mas só podia ser outra garota. "Outro cara na cama com minha mulher, não..." "Mas e se ela se apaixonasse pela outra?", perguntei, pegando pesado. Ele não conseguiu responder. Travou.

Um casal de amigos aceita a troca de casais. Mas ela tem ciúmes, contou-me, um ciúme sutil. Se incomoda quando a outra ou o outro não percebem o seu lugar. "Quando eles, ou algum deles, acham que podem mudar alguma coisa entre nós. Eu e o meu marido, nós nos amamos."

A melhor história de ciúme que ouvi foi de uma figura que tem uns 40 e que, aparentemente, vive de bem com a vida. Nunca imaginei que sentisse ciúme de alguém. Ela me contou assim: "Eu decidi aceitar o convite pra tomar uma cerveja com ele e a namorada. Era um desafio e tanto. Fiquei imaginando quantas vezes teria vontade de subir no pescoço dos dois. Mas queria me superar. Estava convencida de que só podíamos ser amigos. Cheguei e sentei estrategicamente na frente da garota. Estranhamente não senti nada. Ou melhor, sentia pena. A cada palavra dela eu pensava: o que ele viu nessa mulher? Ela não é nem bonita, nem inteligente. A voz é esganiçada. Eu olhava pra ela, olhava pra ele, e não via onde aquela história se encaixava. E me sentia bem por não ter ciúmes. Foi aí que aconteceu: o celular dele tocou. Ele atendeu e passou pra ela, falando um nome masculino. ‘Oi, meu amor, a mamãe já vai pra casa’, ela disse algo assim. Droga, eu pensei! É o filho da garota, ligando no celular dele! Viu? Não tive ciúme dela logo de cara, mas tive ciúme daquela situação tão íntima que, só com o telefonema, percebi que existia entre os dois. O chão saiu debaixo dos meus pés!"
"Mas, baby", eu respondi, "podia não ser nada disso. Vocês já tinham bebido, pode ter imaginado coisas...".
"Eu sei, mas é disso que eu estou falando. Eu não sei o que está acontecendo ali."
Minha amiga teve de engolir o pote inteiro.

segunda-feira, 11 de agosto de 2008

POR CINCO MINUTOS


Publicada na coluna ELAS SABEM DEMAIS em 18 de novembro de 2007

A moça nem respira ao volante. O trânsito quase parado ajuda na sua observação assustada, em
princípio muito indignada. Depois até emocionada. E, no final, resignada.
O olhar fixo está naquele grupo de pessoas que acorda na manhã cinzenta da cidade. O chuvisco
de São Paulo gela o ambiente. Um a um, vão saindo de barracas feitas de lona meninas e meninos de pele meio manchada, despenteados, de roupas largas, amassadas e rasgadas, rostinhos sujos.
Mulheres esguias e grosseiras, que um dia foram bonitas, também estão por lá com suas saias
rodadas. Uma delas, a que está um pouco mais afastada, se põe de cócoras e, com uma caneca de
alumínio cheia de água fria, lava um bebê de pouco mais de 1 ano. É um pequeno andante, que ela solta em seguida para ver cambalear desajeitado até cair na grama batida.
Os homens morenos usam botas, calça jeans envelhecida, camisa meio aberta mostrando parte
do peito e, na cintura, um facão. Estão reunidos numa rodinha, conversando baixo, mascando fumo, ameaçadores.
Uma fogueira aquece o café perto da barraca maior. Uma velha toma conta do fogo. A fumaça
desenha fantasias no ar e deixa todo o ambiente mais misterioso. O menino maior vai até a calçada, se aproxima da avenida e olha os carros passando devagar no congestionamento. Um dos carros de vidros fechados é o de Alba.
“É impossível imaginar o que ele pensa”, fala sozinha a moça ao volante. O menino se volta de repente e joga longe um pedaço de madeira que tem na mão, numa brincadeira. Alba se assusta e dá um grito abafado, que ninguém escuta.
Mais calma, a motorista pensa, com lágrimas nos olhos: “Essas crianças precisam de cuidado!”
Tem ímpetos de sair do carro para enfrentar toda aquela gente estranha, para “salvar” os pequenos. Mas, de repente, percebe outra coisa: “Parecem felizes...” Se sente ainda mais confusa após olhar de novo para a cena, agora com outros olhos, e perceber todos juntos, compartilhando o café, sorrindo e brincando sem nenhum ar de preocupação.
Uma curva e o pescoço de Alba se esforça para não perder outros detalhes do grupo. Até que não
é possível vermais nada. Os prédios já escondem os ciganos acampados na praça. E a cena toda não durou mais do que cinco minutos.
E só então Alba volta para o trânsito e para si. Olha para o espelho retrovisor, admira o reflexo
de seu rosto, retoca o batom, ajeita a franja lisa e loira, respira fundo, acelera e esquece completamente tudo o que viu e sentiu.

CABEÇA MASCULINA


Publicada na coluna ELAS SABEM DEMAIS em 11 de novembro de 2007

Os homens só se preocupam mesmo com o trepar!
“Oh, amor, você tem que fazer algum resguardo?”, perguntou Aristides para Sara, dois dias antes da cirurgia. Ela ia fazer uma intervenção simples, pra tirar um pequeno cisto, e o médico já havia dito que não era nada grave.
Sara tinha chegado tarde do trabalho, estava cansada, com fome e pedindo um banho.
Aristides fez de conta que não percebeu, foi tomar banho na frente, se barbeou e saiu todo cheiroso. Mas não fez menção de tocá-la. Ele a conhecia bem e sabia que podia ser um erro fatal.
Sara sacou o jogo e se animou. Correu pro banheiro, tomou uma ducha morna e prolongada, passou um creme no corpo, colocou a camisola transparente e se meteu embaixo das cobertas.
Encostaram coxa com coxa enquanto na TV passava um especial sobre as perversões do Império Romano.
Foi aí que Aristides fez a observação, com aquele tom de voz carinhoso de fazer derreter qualquer tipo de resistência feminina:
“Pensei que você estivesse de resguardo hoje”.
“Não”, ela disse. “O médico não recomendou nada sobre isso...” E deixou a mão dele subir e descer sobre suas coxas, e depois sobre sua barriga e todo o resto mais...
Terminou antes do especial da TV, mas Sara me contou que foi delicioso. Tecnicamente perfeito.
Exaustos, eles nem tentaram conversar (também já não faziam isso há tempos, mas esta é outra história). Viraram cada um para um lado e dormiram na hora, profundamente.
Na manhã seguinte, Sara estava revigorada e saiu para trabalhar. Aristides, de folga naquele dia, ficou em casa. Como sempre, ela voltou tarde, cansada, com fome e precisando de um banho.
Mas faria a operação no dia seguinte cedinho e tudo o que mais desejava era uma recepção carinhosa. Ela estava apreensiva, nervosa, com bastante medo, mesmo sabendo que tudo devia ser muito simples.
De cara estranhou as luzes da casa apagadas. O carro estava na garagem, mas Aristides não veio abrir a porta. Ela entrou e, no quarto, dormindo, lá estava ele.
Quando acendeu as luzes, ele entreabriu os olhos e murmurou: “Deixei janta pra você dentro do microondas”.
“Que sorte!”, ela pensou. “Mas não posso comer, estou de resguardo por causa da cirurgia...”, ela respondeu, quase chorando, numa tentativa desesperada de sensibilizá-lo.
“Então, guarda na geladeira...” E virou pro outro lado para continuar a roncar.

sábado, 14 de junho de 2008

A MACHADINHA


Publicada na coluna ELAS SABEM DEMAIS em 4 de novembro de 2007



Hilda tinha uma machadinha . Ganhou de presente do Doca. Mas não foi um presente qualquer. Não que ganhar uma machadinha de presente do marido seja coisa comum. Mas poderia ser um presente, digamos... terno, carinhoso ou até exótico se o marido tivesse ido até uma loja, olhado cada objeto com atenção e escolhido o que mais refletia o amor que sentia pela mulher. Mas não foi assim. Hilda foi quem pediu a machadinha . Pediu não: exigiu. Quis a machadinha quando descobriu que Doca a traia. Pois ele de birra foi à loja, escolheu um belo exemplar, de cabo vermelho, amolou bem amolado e levou para a mulher. Ela recebeu, não agradeceu, enrolou em um pano de pratos e guardou no meio de suas calcinhas. “Eu ainda te mato com essa machadinha !”, declarou. A traição foi assim: o casal e dois filhos viviam numa cidadezinha da Paraíba. Já tinham passado por São Paulo, guardado algum dinheiro e, como boa parte dos migrantes, resolvido voltar pra terrinha. Depois de um tempo, o calor, o ócio e a falta de dinheiro voltaram a apertar e eles decidiram apostar de novo no Sul. Hilda decidiu voltar pra São Paulo primeiro. Tinha contatos, antigas patroas e, avaliou, podia conseguir um emprego e preparar o retorno da família. Mas a solidão é um osso difícil de roer para o homem que adora dizer que é macho. Dois meses sem uma mulher foi o limite para Doca: arrumou uma amante, mulher de um vigia noturno. Tinham encontros todas as noite, na casa dela. Ele esperava as crianças dormirem e, pra não fazer barulho e correr o risco de acordar alguém, saía e chegava em casa empurrando a moto. Grande idéia essa do Doca! O plano era perfeito, as crianças tinham sono pesado, mas (olha aí o imponderável) a família tinha uma vizinha. E ela ligou para Hilda. A mulher enfurecida comprou uma passagem de avião à prestação e voltou no dia seguinte pra sua cidade. Foi direto pra casa da vizinha e lá passou o dia escondida. Ouviu o marido brigando para os meninos irem logo pra cama. Viu as luzes do quarto dos garotos se apagarem. Viu ele empurrando a moto da garagem sorrateiramente. E estava lá, na sala, quando ele voltou de madrugada, quase amanhecendo. Foi um Deus nos acuda! Pra encurtar a história, até levar a mulher pra conhecer a amante ele foi obrigado. Depois da fúria, Hilda, de verdade, se divertia com a covardia do marido. E aí veio a idéia da machadinha . Hilda mantém até hoje a bichinha guardada, embrulhada no pano de pratos, no meio de suas calcinhas. Quando a coisa aperta, ela só fala: "Olha, Doca, que um dia eu ainda vou usar essa machadinha."